Esperar O Momento Perfeito É Uma Forma De Desistir
Você já percebeu como a gente se cobra tanto pra começar algo já sendo bom nisso… que acaba nunca começando nada? Passamos meses, anos, planejando o momento perfeito, o conhecimento completo, a versão ideal de nós mesmos. Enquanto isso, a vida segue acontecendo lá fora. Projetos morrem na cabeça. Sonhos viram arrependimentos silenciosos. Relacionamentos que poderiam existir nunca saem do “e se?”.
A sociedade nos vende que fracasso é errar em público, mas o fracasso de verdade é outra coisa: É olhar pra trás e ver uma coleção de coisas que a gente nunca tentou.
Eu não vou te dizer que é fácil. Não vou prometer que basta dar o primeiro passo e tudo flui. Vou te confrontar com uma verdade antiga, repetida por filósofos, santos e gente comum que um dia cansou de esperar: a vida só se constrói olhando pra frente, mesmo sem entender tudo agora.
Se você está cansado de se preparar pra uma vida que nunca chega, assiste esse vídeo até o fim. Pode doer. Mas talvez seja exatamente o que você precisa ouvir.
A Paralisia do Perfeccionismo na Sociedade Moderna
Vamos começar falando sobre essa armadilha que a sociedade armou para nós mesmos, uma que nos faz tropeçar antes mesmo de dar o primeiro passo. Imagine uma pessoa comum, como eu ou você, sentada no sofá, rolando o feed infinito das redes sociais, vendo histórias de sucesso que parecem ter surgido do nada, como se aquelas celebridades ou empreendedores tivessem nascido com um manual de instruções para a perfeição. Ah, que ironia! A cultura atual nos bombardeia com imagens polidas, editadas, filtradas, onde todo mundo é expert em tudo, e o erro é algo que só acontece com os outros, os "fracassados". Mas quem define o que é fracasso? Nós mesmos, influenciados por uma sociedade que valoriza o resultado final mais do que o caminho trilhado.Pense nisso: quantas vezes você já adiou um projeto porque achava que não estava pronto o suficiente? Um livro que nunca foi escrito, uma academia que nunca foi frequentada, uma conversa difícil que nunca aconteceu. Esse perfeccionismo não é inato; ele foi cultivado. Desde crianças, somos ensinados a buscar notas perfeitas, elogios impecáveis, aprovações constantes. Professores, pais, chefes – todos eles, de forma bem-intencionada ou não, plantam essa semente de dúvida. "Faça direito ou nem faça", eles dizem. E aí, o que acontece? Ficamos parados. Congelamos. Viramos estátuas vivas de um potencial não realizado.
Deixa eu te explicar: o perfeccionismo é uma forma de autossabotagem mascarada de virtude. Psicólogos como Carol Dweck, em seu livro "Mindset: A Nova Psicologia do Sucesso", descrevem isso como uma mentalidade fixa, onde acreditamos que talentos são inatos e não desenvolvidos. Se você não nasce bom em algo, melhor nem tentar, certo? Errado! Dweck argumenta que o crescimento vem da mentalidade de crescimento, onde o esforço é o rei. Mas nossa sociedade, obcecada por ídolos instantâneos, ignora isso. Olhe para os reality shows: participantes são julgados por apresentações iniciais e não pelo progresso. É sarcástico pensar que, em uma era de "autoajuda" infinita, com livros e podcasts prometendo transformação, a maioria das pessoas ainda fica presa no bloqueio inicial, esperando o momento perfeito que nunca chega.
Agora, vamos a exemplos que validam essa crítica. Na literatura, Victor Hugo, em "Os Miseráveis", retrata Jean Valjean como alguém que começa sua jornada não como herói perfeito, mas como um ex-presidiário falho, cheio de erros. Ele não espera ser imaculado para reconstruir sua vida; ele age, erra, aprende. Hugo critica a sociedade francesa do século XIX por sua rigidez moral, que condena as pessoas por imperfeições iniciais, impedindo a redenção. Semelhante a nós hoje, onde o cancelamento online destrói carreiras por tropeços iniciais.
Na Bíblia, na tradição católica, pense no Livro de Provérbios (24:16): "Pois o justo cai sete vezes e se levanta, mas os ímpios tropeçam na desgraça". Aqui, a Igreja ensina que a queda não é o fim, mas parte do processo. São Pedro, um dos apóstolos mais próximos de Jesus, negou Cristo três vezes – um fracasso épico! – mas não parou aí. Ele se tornou o alicerce da Igreja. O Catecismo da Igreja Católica (n. 1426) fala sobre a conversão como um processo contínuo, não uma perfeição instantânea. Isso valida que esperar perfeição para começar é contra a essência humana, divinamente projetada para o esforço e a graça.
Olhe para o mundo corporativo: empresas pregam "inovação" e "falhe rápido", mas demitem quem erra na primeira tentativa. Hipocrisia pura! Ou nas relações pessoais: quantos casais nunca se formam porque um espera o parceiro ideal, ignorando que relacionamentos se constroem com tempo e imperfeições? Isso mexe com nossos sentimentos de inadequação, não é? Aquela voz interna que diz "Você não é bom o suficiente" é ecoada pela sociedade, nos deixando isolados, ansiosos e deprimidos.
Agora, considere o impacto cultural. Na era digital, o algoritmo favorece o conteúdo "perfeito", impulsionando criadores que editam horas para parecerem minutos naturais. Isso cria um ciclo vicioso: vemos perfeição, nos cobramos, não começamos, e o mundo perde vozes autênticas. Livros como "O Poder do Hábito" de Charles Duhigg mostram que hábitos se formam com repetição imperfeita, não com inícios impecáveis. Duhigg usa exemplos de atletas que treinam falhando repetidamente até acertar.
Na Bíblia novamente, o Êxodo descreve Moisés, gago e inseguro, chamado por Deus para liderar. Ele não era perfeito; relutou, argumentou com Deus (Êxodo 4:10-13). Mas começou, e mudou a história. A Igreja Católica vê isso como modelo: santos como Santa Teresa de Ávila, em sua autobiografia, admitiam fraquezas iniciais, mas persistiam na oração e ação.
O perfeccionismo leva à procrastinação crônica. Estudos mostram que os perfeccionistas têm mais chances de burnout. Sarcasticamente, é como se a sociedade dissesse: "Seja perfeito ou suma". Mas e se a gente mudar? E se a gente celebrar os começos bagunçados? Pense em Picasso, que pintou milhares de obras ruins antes das obras-primas. Seu biógrafo, John Richardson, nota que o gênio veio da prática incessante, não da perfeição inata.
Isso toca nosso orgulho ferido, nossa raiva contra um sistema que nos faz duvidar. Mas também inspira esperança: ao reconhecer isso, podemos romper o ciclo. Não espere o diploma para empreender, a forma perfeita para malhar, o roteiro ideal para falar. A sociedade critica os que tentam e falham, mas inveja os que persistem.
Agora, olhe para a educação: sistemas que punem erros iniciais matam a criatividade. Ken Robinson, em "O Elemento", critica isso, dizendo que escolas matam a imaginação ao exigir perfeição precoce. Exemplos bíblicos como Davi, pastor imperfeito que derrota Golias (1 Samuel 17), mostram que Deus usa os improváveis.
Em resumo, o perfeccionismo é uma crítica à sociedade que valoriza aparências ao invés do concreto, deixando a gente paralisado. E é hora de questionar isso.
O Verdadeiro Fracasso Não É Errar, É Ficar Parado
Chega a ser engraçado, quase patético, como a sociedade moderna transformou o fracasso em um monstro assustador, quando na verdade o monstro de verdade é a inércia. Todo mundo fala de fracasso como se fosse uma sentença de morte social: "Fulano fracassou no negócio", "Beltrana fracassou no casamento", "Ciclano fracassou na dieta". Mas ninguém para pra perguntar: fracassou em quê, exatamente? Em tentar algo difícil? Em arriscar? Em sair da zona de conforto? Não. O que a gente chama de fracasso quase sempre é só um resultado que não correspondeu à expectativa inflada que criamos na nossa cabeça.O fracasso real, aquele que corrói a alma, é o de nunca ter tentado. É olhar para trás aos 60 anos e perceber que a vida passou enquanto você esperava as condições ideais para viver de verdade. É ter um cemitério de ideias dentro da cabeça, projetos que nunca viram a luz do dia porque você achou que precisava dominar tudo antes de começar. Esse sim é o fracasso irreversível, porque o tempo não volta. Erros, tropeços, quedas? Esses a gente conserta, aprende, melhora. Mas e o que não foi feito? Esse fica ecoando na mente para sempre.
Vamos ser honestos: quem nunca sentiu aquele aperto no peito ao pensar em começar algo novo? Aquele medo de ser julgado, de parecer ridículo, de confirmar que talvez não sejamos tão bons quanto imaginamos. A sociedade alimenta isso o tempo todo. Ela vende a narrativa do gênio nato, do talento natural, do sucesso de um dia para o outro. Histórias de gente que "do nada" virou milionária, famosa ou influente. O que não contam é o caminho: os anos de portas na cara, as noites em claro, os rascunhos jogados no lixo, as tentativas que deram errado antes de dar certo.
Thomas Edison é um exemplo clássico, mas não pelo que você aprendeu na escola. Não foram "mil tentativas até inventar a lâmpada". Foram milhares de experimentos que não funcionaram, e ele não escondia isso. Em uma entrevista, disse algo como: "Eu não fracassei. Apenas descobri dez mil maneiras que não funcionam". Isso não é otimismo vazio, é uma visão prática. Ele entendia que cada erro era informação valiosa, um tijolo no caminho para o acerto. Mas hoje, se alguém posta o primeiro vídeo no YouTube e leva crítica, larga tudo. Se o primeiro reels não viraliza, desiste. A paciência virou artigo de luxo.
Na literatura, Ernest Hemingway nos dá uma lição brutal em "O Velho e o Mar". O velho Santiago passa 84 dias sem pegar um peixe, é ridicularizado pelos outros pescadores, mas continua indo ao mar todos os dias. Quando finalmente fisga o grande marlim, perde tudo para os tubarões no caminho de volta. Fracassou? Objetivamente, sim: voltou com o esqueleto do peixe. Mas Hemingway nos mostra que a dignidade dele está intacta, porque ele lutou até o fim. O fracasso seria ter ficado no porto, com medo de mais um dia vazio.
A Bíblia Católica é ainda mais direta nisso. No Evangelho de Mateus (25, 14-30), Jesus conta a parábola dos talentos. O servo que recebeu cinco talentos negocia e ganha mais cinco. O que recebeu dois faz o mesmo e dobra. Mas o que recebeu um talento, por medo de perder, enterra o dinheiro e devolve exatamente o que recebeu. O senhor o chama de "servo mau e preguiçoso" e o castiga. Não por ter perdido, mas por não ter tentado. A Igreja Católica interpreta isso como um chamado à coragem: Deus nos dá dons não para guardarmos em segurança, mas para multiplicarmos, arriscando. O Catecismo (n. 1804) fala das virtudes cardeais, e a prudência não é covardia, é sabedoria aliada à ação.
Outro exemplo bíblico poderoso é o filho pródigo (Lucas 15, 11-32). O jovem pede a herança, gasta tudo em festas, acaba cuidando de porcos, passa fome. Poderia ter ficado lá, envergonhado, achando que não merecia voltar. Mas ele se levanta, volta para casa, admite o erro. O pai o recebe de braços abertos. A mensagem é clara: o erro não é o fim. O fim seria ter ficado na pocilga por orgulho ou medo.
A sociedade de hoje faria o quê com o filho pródigo? Provavelmente um thread no X cancelando ele por "irresponsabilidade financeira", "falta de planejamento", "privilégio de ter pai rico". Ninguém celebraria a coragem de voltar e recomeçar. Preferimos julgar do que compreender. Preferimos apontar o dedo do que estender a mão.
Pense nas grandes figuras da história que a sociedade inicialmente rejeitou. Van Gogh vendeu um único quadro em vida. Hoje seus trabalhos valem bilhões. J.K. Rowling foi rejeitada por 12 editoras antes de "Harry Potter" decolar. Ela mesma contou que estava depressiva, criando sozinha, dependendo de auxílio do governo. Se tivesse esperado o momento perfeito, a história da literatura infanto-juvenil seria outra.
O que essas pessoas têm em comum? Elas começaram imperfeitas. Escreveram mal no início, pintaram torto, falharam em negócios anteriores. Mas continuaram. Porque entenderam que o processo é mais importante que o ponto de partida. A sociedade, porém, nos treina para o oposto: para sermos juízes implacáveis de nós mesmos antes mesmo de entrar em cena.
Isso gera um sentimento profundo de frustração em muita gente. Você já sentiu, não é? Aquela raiva surda de saber que poderia estar mais longe se tivesse começado antes? De ver pessoas "menos talentosas" passando à frente porque simplesmente começaram? É doloroso. Mas também é libertador perceber que ainda dá tempo. Que o fracasso de verdade não é cair, mas sim não se levantar. E pior: é nem tentar cair.
A psicologia moderna confirma isso. O conceito de "resiliência" ganhou força nos últimos anos. Pesquisas de Angela Duckworth sobre "Grit" (perseverança e paixão por objetivos de longo prazo) mostram que o sucesso depende mais disso do que de QI ou talento natural. Ela estudou cadetes em West Point, alunos em escolas difíceis, finalistas de competições de soletração. Em todos os casos, quem persistia apesar dos erros iniciais chegava mais longe.
Na espiritualidade católica, São Paulo escreve em Filipenses (3, 13-14): "Esquecendo-me das coisas que ficaram para trás e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo". Ele, que perseguiu cristãos antes de se converter, entendia que o passado de erros não define o futuro. Só define se você ficar preso a ele.
Então, quando você sentir aquela vontade de começar algo e a voz interna disser "Você não está pronto", lembre-se: ninguém está! Os que chegam longe são os que começam mesmo assim. Aceitam parecer amadores no início para um dia serem mestres. O fracasso não é o erro. É a paralisia. É o enterro do talento por medo.
E isso dói na gente porque toca no nosso desejo mais profundo: o de sermos vistos, realizados, úteis. De deixar uma marca. E a inércia rouba isso da gente. A ação, mesmo instável, devolve.
A Vida Só Se Constrói Olhando Para Frente
Uma das maiores crueldades que a sociedade nos impõe é essa ilusão de que precisamos entender tudo antes de agir. Como se a vida fosse um quebra-cabeça que só pode ser montado depois de ver a imagem completa na caixa. Como se fosse possível planejar cada passo, prever cada curva, evitar cada dor. Que bobagem confortadora! A verdade é que ninguém sabe o que está fazendo de verdade, pelo menos não no momento em que faz. A gente vai experimentando, escolhendo caminhos com informações incompletas, guiados por intuição, necessidade, desejo, medo, fé. E só anos depois, olhando no retrovisor, as coisas começam a fazer sentido.Essa ideia de que a vida deve ser compreendida olhando para trás, mas vivida olhando para frente, não é frase de calendário motivacional. É uma observação profunda sobre a condição humana. Søren Kierkegaard, filósofo e teólogo dinamarquês, já dizia algo parecido no século XIX: “A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás, mas deve ser vivida olhando-se para frente”. Ele sabia que o ser humano é condenado a viver no futuro incerto, tomando decisões sem garantia, carregando o peso do que ainda não aconteceu.
E a sociedade moderna odeia isso. Ela quer certeza. Quer planejamento estratégico de cinco anos, metas SMART, visão de longo prazo, previsibilidade. Empresas exigem planos detalhados antes de aprovar qualquer ideia. Pais querem que os filhos escolham a carreira aos 17 anos como se soubessem quem serão aos 40. Namoros são analisados como investimentos: “Será que vale a pena? Será que tem futuro?”. Tudo precisa ser calculado, racionalizado, justificado. Mas a vida não funciona assim. Ela é caótica, imprevisível, cheia de viradas que ninguém viu chegar.
Pense nas grandes decisões da sua vida até agora. A faculdade que escolheu, o emprego que aceitou, a pessoa com quem se envolveu, a cidade para onde se mudou. Na hora, você tinha certeza absoluta? Provavelmente não. Você tinha fragmentos: um sonho meio vago, uma pressão familiar, uma oportunidade que surgiu, um coração acelerado. Você foi em frente mesmo assim. E hoje, olhando para trás, muitas dessas escolhas fazem sentido, mesmo as que deram errado. Porque elas te trouxeram até aqui. Até esta versão de você que está ouvindo isso.
A Bíblia Católica está cheia de gente que agiu sem entender tudo. Abraão é chamado por Deus para deixar sua terra, seus parentes, sua casa, e ir para um lugar que Deus lhe mostraria (Gênesis 12). Ele não recebe mapa, não recebe prazo, não recebe garantia de sucesso. Só uma promessa. E ele vai. Aos 75 anos, larga tudo e parte para o desconhecido. Imagine o que os vizinhos disseram. “Está louco? Vai jogar tudo fora por uma voz que ouviu na cabeça?”. Mas ele olhou para frente. E se tornou pai de nações.
Maria, uma jovem de Nazaré, recebe a visita do anjo Gabriel. “Você vai conceber e dar à luz um filho, e ele será chamado Filho do Altíssimo”. Ela pergunta: “Como isso vai acontecer, se eu não conheço homem?”. Boa pergunta. Resposta lógica. Mas depois de ouvir a explicação, ela diz: “Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lucas 1, 38). Ela não entende tudo. Não sabe como vai explicar para José, para a família, para a vila inteira. Sabe que vai ser um escândalo. Mas diz sim. Olha para frente. E muda a história da humanidade.
São José, coitado, acorda com a notícia de que a noiva está grávida. Pelo direito da época, poderia repudiá-la publicamente. Mas um sonho o orienta: “Não temas receber Maria como tua esposa” (Mateus 1, 20). Um sonho. Não uma prova científica, não um teste de DNA, não uma consulta com especialistas. Um sonho. E ele obedece. Age sem compreender totalmente e olha pra frente.
A Igreja Católica sempre viu nesses personagens um modelo de fé ativa, não de espera passiva. No Catecismo (n. 1814-1816), a fé é descrita como adesão pessoal ao Deus que se revela, e essa adesão implica ação. Não é só acreditar na cabeça. É andar, mesmo no escuro.
Na literatura, Franz Kafka captura essa angústia moderna em “O Processo”. O protagonista, Josef K., é preso sem saber por quê. Passa o livro inteiro tentando entender o crime que cometeu, buscando lógica num sistema absurdo. No fim, é executado “como um cão”. Kafka está dizendo: a vida muitas vezes não explica. Não dá motivo claro. Exige que a gente viva mesmo sem compreender.
Já em “Cem Anos de Solidão”, Gabriel García Márquez mostra uma família inteira vivendo ciclos repetidos de erros, paixões, guerras, sem nunca aprender completamente com o passado. Mas eles vivem. Amam, lutam, constroem, destroem. E no fim, quando o último Aureliano decifra os pergaminhos que contam toda a história da família, entende que tudo estava predestinado. Só entende no final. Assim como nós.
Hoje em dia a gente quer o contrário. Quer entender antes de viver. Quer ler todos os reviews antes de comprar um celular, quer pesquisar todos os riscos antes de empreender, quer terapia de anos antes de assumir um compromisso. Como se fosse possível eliminar o imprevisível. Como se a vida viesse com um alerta de spoiler. Resultado? Gente com 30, 40 anos ainda “se descobrindo”, esperando o grande insight que nunca chega, porque insight não vem quando a gente tá sentado no sofá rolando o feed. Vem quando a gente tá em movimento.
E Isso gera uma angústia coletiva profunda. Você sente isso, não sente? Essa sensação de que está atrasado, de que todo mundo já sabe o que quer menos você. Essa pressão de ter uma narrativa clara para contar nas rodas de conversa: “Eu sou fulano, faço isso, meu propósito é aquilo…”. Mas a verdade é que a maioria não tem. Tem fragmentos. Tem dias bons e ruins. Tem escolhas que pareciam certas na hora e depois revelaram outra coisa. E assim é a vida.
A psicologia chama isso de “tolerância à ambiguidade”. Pessoas com alta tolerância lidam melhor com incertezas e, pasmem, são mais felizes e realizadas. Estudos mostram que quem aceita não entender tudo de uma vez toma decisões mais rápidas e, paradoxalmente, mais acertadas a longo prazo. Porque a vida é um processo de correção de rumo, não de execução de plano perfeito.
Olhar para trás é útil pra aprender, pra agradecer, pra perdoar. Mas também viver olhando pra trás é perigoso. Viramos estátua de sal, como a mulher de Ló (Gênesis 19). Ela olhou para trás e paralisou. A mensagem é clara: quem fica preso ao passado não avança.
Então, o convite é este: viva olhando pra frente. Tome a decisão imperfeita hoje. Mude de emprego sem saber se vai dar certo. Comece o canal no YouTube sem saber editar direito. Peça desculpas mesmo sem ter certeza da reação. Diga que ama sem garantia de reciprocidade. Case sem saber como será aos 70 anos. Tenha filho sem manual de instruções. Escreva o livro sem saber se alguém vai ler.
Porque o entendimento vem depois. Vem com o tempo, com as cicatrizes, com as histórias que você vai contar um dia. E aí, olhando para trás, você vai ver que os momentos mais importantes foram aqueles em que você simplesmente foi em frente, mesmo sem mapa.
Faça Por Você
Chega de esperar permissão. Chega de olhar para os lados esperando que alguém valide o seu desejo de começar. A sociedade adora nos convencer de que precisamos de aprovação externa para qualquer movimento: aquele like no post, o elogio do chefe, a opinião da família, o aval dos amigos. Como se a nossa vida fosse um projeto coletivo que depende do comitê alheio para ser aprovado. Ironicamente, vivemos numa época em que todo mundo virou especialista na vida dos outros, dando pitaco em tudo, mas poucos assumem responsabilidade pela própria trajetória.Faça por você. Essa frase parece simples, quase egoísta. Mas é o oposto. É o ato mais generoso que você pode cometer consigo mesmo e, por consequência, com o mundo. Porque quando você se permite começar, mesmo imperfeito, mesmo sem aplausos, você libera espaço para ser quem realmente é. E uma pessoa que se realiza transborda. Transborda energia, criatividade, amor, paciência. Já uma pessoa frustrada, cheia de “e se?” não vividos, contamina tudo ao redor com amargura, inveja e julgamento.
A sociedade não quer que você faça por você. Ela quer que você faça por ela. Que você consuma para manter a economia girando. Que você poste fotos perfeitas para alimentar os algoritmos. Que você trabalhe horas extras para engordar lucros de acionistas. Que você se compare constantemente para comprar mais produtos que prometem te tornar “melhor”. Ela quer você distraído, inseguro, dependente. Porque uma pessoa que faz por si mesma é perigosa. Ela questiona. Ela cria. Ela inspira outros a fazerem o mesmo. E aí o castelo de cartas começa a balançar.
Na literatura, Antoine de Saint-Exupéry, em “O Pequeno Príncipe”, coloca na boca da raposa uma das frases mais poderosas já escritas: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. Mas antes disso, o principezinho precisa partir, precisa viajar por planetas, conhecer gente estranha, arriscar o coração. Ele não fica no seu asteroide esperando entender tudo sobre a rosa antes de cuidar dela. Ele age. Ama. Sofre. Aprende. Faz por ele. E só assim a rosa se torna única no universo.
Albert Camus, em “O Mito de Sísifo”, enfrenta o absurdo da existência. Sísifo é condenado a empurrar uma pedra morro acima eternamente, só para vê-la rolar de volta. Camus conclui que precisamos imaginar Sísifo feliz. Como? Aceitando o absurdo e escolhendo empurrar a pedra mesmo assim. Não por obrigação externa. Não por recompensa prometida. Mas por ele mesmo. Pela dignidade de escolher o próprio esforço. Faça por você, mesmo que o mundo diga que é inútil.
A Bíblia Católica traz exemplos que cortam o coração de tão claros. No Evangelho de Marcos (10, 46-52), Bartimeu, o cego de Jericó, está à beira do caminho mendigando. Jesus passa com uma multidão. Bartimeu grita: “Jesus, Filho de Davi, tem piedade de mim!”. A multidão manda ele calar a boca. “Fica quieto, está atrapalhando”. Mas ele grita mais alto. Jesus para, chama-o. “O que queres que eu te faça?”. Bartimeu responde: “Mestre, que eu veja!”. E vê. Ele não esperou permissão da multidão. Não esperou o momento oportuno. Gritou por ele mesmo. E foi atendido.
Outro momento forte é o de Zaqueu (Lucas 19, 1-10). Baixinho, chefe dos cobradores de impostos, odiado por todos. Quer ver Jesus, mas não consegue por causa da multidão. O que ele faz? Sobe numa árvore. Parece ridículo para um homem rico e importante. Mas ele faz por ele. Jesus olha para cima, vê o esforço, e diz: “Zaqueu, desce depressa, hoje preciso ficar em tua casa”. A salvação entra na vida dele porque ele ousou fazer algo por si mesmo, contra o que os outros esperavam.
A Igreja sempre ensinou que a dignidade da pessoa humana é sagrada (Catecismo, n. 1700). Que cada um tem um chamado único, uma vocação. Não é algo que os outros definem por você. É algo que você descobre vivendo, arriscando, escolhendo. Os santos não esperaram consenso. Santa Joana d’Arc ouviu vozes e liderou exércitos aos 17 anos, contra a vontade de reis e bispos. São Francisco de Assis largou riquezas porque sentiu um chamado interior, mesmo que o pai o deserdasse publicamente. Eles fizeram por eles. E mudaram o mundo.
Hoje, a gente terceiriza a própria vida. Espera o curso perfeito para empreender. Espera o corpo perfeito para se sentir bem. Espera o parceiro perfeito para se permitir amar. Espera o emprego perfeito para se sentir realizado. E enquanto espera, a vida acontece. Os anos passam. A saúde muda. As pessoas queridas partem. E fica aquele vazio: “Por que eu não fiz aquilo quando podia?”.
Isso desperta sentimentos fortes, né? Raiva de si mesmo. Tristeza pelos sonhos adiados. Mas também uma faísca de rebeldia. Uma vontade de dizer “chega!”. De perceber que ninguém vai viver sua vida por você. Que ninguém vai sentir orgulho das suas conquistas se você não as buscar. Que ninguém vai se arrepender pelos seus nãos se não for você mesmo.
Viktor Frankl, sobrevivente do Holocausto, escreveu em “Em Busca de Sentido” que a última das liberdades humanas é escolher a própria atitude em qualquer circunstância. Mesmo nos campos de concentração, ele viu pessoas que escolhiam dignidade, esperança, amor. Não porque o mundo permitia. Mas porque faziam por elas mesmas. E essa liberdade ninguém tira.
Então, o que você está esperando? O momento em que vai se sentir 100% pronto? Ele não existe... O momento em que todo mundo vai apoiar? Alguns nunca vão... O momento em que o risco vai ser zero? A própria vida é um risco... O momento em que você vai ter todas as respostas? Elas vêm depois que isso tudo acabar...
Faça por você hoje. Comece o projeto pequeno. Mande aquela mensagem difícil. Inscreva-se na aula. Corra os primeiros metros. Escreva a primeira página. Ligue para aquela pessoa. Peça ajuda. Diga não para o que te sufoca. Diga sim para o que te acende.
Porque no final das contas, quando você estiver no leito de morte – e todos nós estaremos um dia –, não vai se arrepender das coisas que tentou e não deram certo. Você vai se arrepender das que nem tentou. Das palavras que não disse. Dos amores que não viveu. Dos sonhos não perseguiu.
Faça por você. Não por aplauso. Não por status. Não por comparação. Faça porque essa vida é sua. É única. É irrepetível. E merece ser vivida com coragem.
E quando você fizer, vai descobrir uma coisa linda: ao fazer por você, você inspira outros a fazerem o mesmo. Um ciclo virtuoso começa. Pessoas ao seu redor se sentem autorizadas a começar. A arriscar. A viver. E aí, sim, você muda o mundo. Não com grandes discursos. Mas com o exemplo quieto e poderoso de alguém que ousou ser protagonista da própria história.
Faça. Hoje. Por você.
Livros Citados
"Mindset: A nova psicologia do sucesso" de Carol S. Dweck: https://amzn.to/3LDtXGT"Os Miseráveis" de Victor Hugo: https://amzn.to/4r1EpqZ
"O Poder do Hábito" de Charles Duhigg: https://amzn.to/3NouGML
"O Elemento" de Ken Robinson: https://amzn.to/4sHiHKt
"O Velho e O Mar" de Ernest Hemingway: https://amzn.to/3NlA1V7
"Harry Potter" de J. K. Rowling: https://amzn.to/4jF2MIi
"Garra: O poder da paixão e da perseverança" de Angela Duckworth: https://amzn.to/4qolA14
"O Processo" de Franz Kafka: https://amzn.to/4sNsT4c
"Cem Anos de Solidão" de Gabriel García Marques: https://amzn.to/4bwd7V2
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"Em Busca de Sentido" de Viktor Frankl: https://amzn.to/3LM8LyE
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